No pude escogerse el lugar de su cuna: y si puede escogerse el de su tumba; y en este caso, ésta es nuestra verdadera Patria, porque en ella moramos para siempre, y ella no nos expulsa jamás de su seno generoso”

José Maria Vargas Vila

Bogotá 1960-Barcelona 1933


Y Vargas Vila escogió Barcelona. Estuvo enterrado por cuarenta y tantos años en el Cementerio de Les Corts, pero los inefables lambericas póstumos decidieron contravenir sus deseos y lo repatriaron a Bogotá en 1981, en el gobierno de los más obesos y los más rapaces, en pleno Estatuto de Seguridad de Julio Cesar Turbay Ayala. ¿Podriá ser más grande la ironía y más cruel la postrer infamia?.

Republicano, irreverente, librepensador, antiimperialista, panfletario, ácrata, iconoclasta, ateo y fauno irredento Vargas Vila fue el primer escritor colombiano con un amplio reconocimiento mundial. Sus novelas y ensayos insuflaban en adolescentes y adultos, de ambas orillas del océano, la pasión erótica y política.

En la épica familiar Vargas Vila entra como huésped del Hotel de mi tatarabuela Emperatriz Roncancio en Villa de Leyva alrededor de 1884. Ella entra en la ficción literaria como protagonista de la novela romántica Aura o las Violetas, detalle que no le hizo ninguna gracia a mi tatarabuelo Juan Francisco Retiz.



En Villa de Leyva ejerció como maestro en la escuela pública bajo el precepto: "la letra con sangre entra". Mi tio bisabuelo Pablo Alejandro Rodríguez, en una rara combinación de masoquismo y fetichismo -¿maso-fetichismo?- se hizo con la didáctica férula con la cual fue "educada" casi toda esa generación de boyaquitos y, que se conserva en la Hacienda San Pablo como reliquia familiar.

Fernando Vallejo en su biografía de José Asunción Silva, Almas en Pena, Chapolas Negras, nos dá más detalles de su vida al describirle como un pecador nefando, detalle este que tranquiliza a los Retiz, preocupa a los Rodríguez, y que a mi me da lo mismo, por que soy tan Retiz como Rodríguez -como medio pueblo después de más de un siglo de amancebamiento-.

Así que le sobran méritos a Don José Maria Vargas Vila para ser considerado como el primer ciudadano emérito de la República de Catalombia.

No solo es Villa de Leyva, ni Bogotá, ni Barcelona, tampoco es solo la pasión por la literatura, la historia y la política. Lo que nos une, muy en el fondo y al igual que Vallejo, es el pesismismo y el dolor de patria por "la irredenta, y lo que es más triste, la irredimible" Colombia.


... A mí me es grata la idea de morir aquí, en esta hospitalaria tierra catalana, y dormir mi último sueño bajo su suelo generoso, al arrullo de este mar, tan semejante a los mares nuestros, bajo el fulgor del Cielo de resplandores tropicales sintiendo cerca de mi tumba el aliento de ese gran pueblo, tan fuerte y tan viril, en cuyo corazón duerme siempre un jirón de Tempestad"

José Maria Vargas Vila

Tagebücher (Diario) Marzo 1930 - Barcelona


Imprímase y cumplase

13 comentarios:

Anònim ha dit...

Tengo noticias de que en Brasil (Brasilia) fué publicado en esta semana (06 de mayo) un libro sintesis de la obra de Vargas Vila, libro que fué
hecho por el escritor brasileño Ezio Flavio Bazzo.
Titulo: ASI HABLÓ VARGAS VILA
Saludos
H.G.R

Anònim ha dit...

Segundo las noticias que tengo, hasta el momento ningun periódico brasileño dió importancia al libro síntesis de la obra de Vargas Vila, producido por Ezzio Bazzo. Parece que sigue en curso el prejuicio en contra del autor colombiano... y que la prensa en general, pero la brasileña en particular, sigue siendo la misma ramera de siempre... Viva VARGAS VILA!!!
Juan Gutieres/Argentina

Jose Carlos Vieira ha dit...

Libertina, liberdade

Revolucionário, termo mais gasto e mal utilizado do século 20. Mas Ezio Flavio Bazzo é um dos poucos escritores vivos que pode vestir esta camisa, usar este colírio, beber deste vinho e gritar: “Todo homem independente, sincero e valoroso tem contra ele, a liga dos servis, dos impostores e dos covardes, que são a maioria”. Assim falou Vargas Vila é o mais novo livro lançado por esse escritor que viaja pelas cáries, pelas úlceras, pelas alcovas infestadas de ácaros e caspas da sociedade moderna denunciadas por José María Vargas Vila, um colombiano nascido em Bogotá, em uma família de ideais radicais, em 23 de julho 1860 e morreu em Barcelona em 23 de maio de 1933.. Rotulá-lo? Carimbá-lo? Colocá-lo na moda? Impossível… Assim falou Vargas Vila são doses pequenas de antídoto contra nossa mediocridade. “Ser lido pelos melhores e não pela maioria, esta é a única aspiração de um escritor, que sabe ser pastor de idéias, e não traficante de livros”. O novo trabalho de Bazzo sobre esse anjo maldito você encontra nos sebos, nos bares… por aí. (José Carlos Vieira)

Catalombia ha dit...

Me agrada mucho que Vargas Vila tenga todavía repercusión y más en un país como Brasil. Ya trataré de conseguir el libro de Ezzio Bazzo.

Revista Espaço Acadêmico ha dit...

REVISTA ESPAÇO ACADÊMICO
Maringá/PR/Brasil


ASSIM FALOU VARGAS VILA
DE Ezio Flavio Bazzo
COMPANHIA DAS TETAS PUBLICADORA, 2005 (116 páginas)
R$: 20,00
pedidos: ezio@yawl.com.br


Foi num amontoado de livros desencapados e prestes a serem jogados no lixo que lá por 1968, focinhando numa loja de objetos usados, deparei-me, por primeira vez, com um exemplar do Rosal pensante, de autoria de um sujeito até então desconhecido e com um nome ridículo: José Maria de la Concepción Apolinar Vargas Vila Bonilla, nascido em 1860 na Colômbia e morto em 1933 em Barcelona. Só pensei em negociar o preço daquele verdadeiro restolho depois de ficar hipnotizado com a leitura destas duas linhas:

Curar-se de certas excentricidades, é fazer como os outros: cretinizar-se; a primeira condição de ser coletivo é ser abjeto.

Talvez hoje esta frase não tenha mais o efeito iconoclasta daquela época, quando tinha apenas dezenove anos, vivia no mundo da lua, confinado em casas estudantis, embriagado de idealismos, sem a mínima idéia de que o homem era um «animal méchant par excellence», e quando as veraneios chapas-frias do DOPS e do exército, em seu teatro ditatorial e burlesco subiam e desciam em alta velocidade, vinte e quatro horas por dia pelas ruas e becos gelados de Curitiba. O livro, além de ser um viveiro de traças, também fedia. De cócoras, fascinado, li e reli um segundo parágrafo:

“O escritor que fala por diminutivos, é porque pensa diminutamente; os heróis de Homero, não combatiam com alfinetes; quando leio versos cheios de «cabecinhas loiras», «virgenzinhas queridas», «manecitas liliales», penso instintivamente, em todos esses rimadores, com almas de costureiras sentimentais, que infestam nosso Parnaso...”

Foi meu primeiro e definitivo encontro com Vargas Vila, esse blasfemo furacão do verbo que não se assemelhava em nada aos da zoologia literária da época. Foi minha primeira leitura desse contemporâneo de Ruben Dario, autor de umas dezoito mil páginas, entre as quais as do famoso Íbis, texto que por ter levado diversas pessoas a se matarem ficou conhecido como a Bíblia do Suicídio.

Sem falar dos anarquistas e dos desvairados mexicanos que de 1979 a 1981 invadiam meu pequeno apartamento da calle Copilco a qualquer hora do dia e da noite para discutir os textos de Vargas Vila e nem da prostituta goiana que mantinha permanentemente sobre o criado mudo, ao lado de uma oração de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, um exemplar de seu Lírio Negro, foi o Jorge, do Armazém do livro usado de Taguatinga quem, em 1997, ligou para comunicar-me que havia comprado a obra vargasviliana completa da viúva de um dentista de Anápolis. Fechamos negócio por telefone. Nos dias seguintes, sob os estrondos da tempestade que caiu sobre a cidade, folhear um por um daqueles volumes publicados pela Sopena de Barcelona, e ainda por cima, rabiscados pelo dentista recém morto, foi uma viagem quase kardecista e quase nirvânica.

Estava lá, tudo lá o pouco que já sabia e tudo o que estava por saber da obra desse novelista militante, panfletário, jornalista, niilista, ateu, anticlerical e obsessivamente indignado com a palhaçada fastidiosa reinante na América Latina, principalmente com o carneirismo vergonhoso de sua política e de suas assembléias. Exageradamente ético, erótico e libertário, (apesar de ter vivido uma relação simbiótica e doentia com a mãe), V.V. odiava a velharia supersticiosa e os caudilhos criminosos que se sucediam por todos os países do continente, da mesma maneira que detestava a dominação imperialista dos yankees, contra quem escreveu Ante los bárbaros. Banido de sua terra natal viveu na Venezuela e em NY onde, em 1892, trabalhou como redator do jornal anticlerical Progresso e fundou as revistas Hispano-América e Némesis. Com sua mudança definitiva para a Europa, incluiu em sua agenda libertária a luta contra as conhecidas máfias intelectualistas, contra os fabricantes de filosofias para entregadores de pizza e contra os conhecidos PHDéspotas que só se valiam da escrita para ruminar e puxar o saco de quem estava no poder.

Apesar de toda sua erudição, Vargas Vila foi também um escritor popular, lido compulsivamente pelos marinheiros, pelos artesãos, pelos presidiários e marginais de todos os calibres. Contemporâneo de Freud, admirador de Ibsen, amigo de Pompeyo Gener e leitor de Stirner, deve ter navegado exaustivamente tanto pela psicanálise como pelo anarquismo individualista e ter arrancado daí não apenas o sentimento negativo com o qual construiu seu niilismo, mas também a sacação subterrânea do Ser, através da qual deu realidade e vigor tanto à sua filosofia como à sua análise dos homens, do mundo e da política latino americana, dessa parte quase maldita do continente, com seus sucessivos ladinos e empedernidos governantes de turno.

Com seus livros, sua vida e seu discurso radical, não apenas contra a ignorância e a bestialização social, mas também contra o absurdo da existência e contra todas as hipóteses divinas (Deus não me expulsou do céu, eu sim expulsei Deus de meus céus interiores. Nisso fui maior que Satã), era previsível que fosse abrir frentes de indignação, de ódio e de inimizades por todos os lados, mas, principalmente, entre os apóstolos da demagogia. Se nunca se rendeu a elas, foi porque era doentiamente convicto de que

“a verdadeira eloqüência deve produzir sobre os povos o efeito do furacão sobre as ondas, o efeito das chamas sobre o feno seco, da chispa sobre a pólvora, isto é, deve produzir a tormenta, o incêndio, a explosão e a tragédia irremediável”.

E mais:

“Que aquele que põe fé nos outros, perde a única fé que salva: a fé em si mesmo”.

Na Espanha de Franco seus livros foram marcados com o ponto vermelho da censura e na Colômbia a igreja ameaçava excomungar quem lesse suas novelas. Seus textos e fotos chegaram a ser queimadas em praça pública. “Em suas obras não é apenas o erotismo sensualista do naturalismo o que se respira, -dizia o padre Jesús M Ruano- ali se faz apoteose do pecado, a incitação aos crimes mais repugnantes. Ali brota como emanação pútrida o ódio sistemático à pureza dos costumes, à dignidade, à generosidade e à racionalidade do homem”. Além dos padres e dos déspotas políticos, também os escritores que sempre florescem em abundância nos quartinhos de fundo dos palácios, das paróquias, da imprensa oficial e dos antros diplomáticos não se cansavam de tentar desqualificá-lo.

Não escrevo para deleitar, escrevo para combater, contestava–lhes Vargas Vila, em Prosas-laudes.

Em 1952, dezenove anos após sua morte, o crítico José J. Guerra afirmava em um artigo que em todos os livros de Vargas Vila “desde a primeira até a última página só se encontrava gritos satânicos de rebelião e de insultos contra tudo o que existe de mais nobre e mais sagrado para o homem”.Até o velho Borges, o ilustre, cego e erudito diretor da Biblioteca Nacional Argentina, na única vez que fez referência a Vargas Vila, em Historia de la Eternidad, publicada no ano da morte de Vargas Vila (1933), no capítulo intitulado Arte de injuriar, referindo-se a uma crítica deste a Santos Chocano, tentou eclipsá-lo.

E é exatamente por isso, por Vargas Vila ter sido proibido por Franco, excomungado pela igreja colombiana e por ter causado tanta indignação entre a canalha detratora que o estamos revisitando e republicando.

Ressuscitá-lo no Brasil, principalmente em Brasília, nesta cidadela de caixotes, de burocratas errantes, de botecos, de novos ricos delirantes, de filhinhos e netinhos de agentes da ordem, de escritorzinhos engravatados e de shoping centers, neste momento histórico e político broxante, com a América Latina ainda mergulhada em seus esgotos e ainda de joelhos diante da mesma quadrilha de sua época, é quase um dever de quem pensa e de quem tem desprezo pela pobreza mental generalizada do cotidiano. É quase uma obrigação de quem tem horror a esses magotes ainda não nascidos plenamente que além da televisão e das feijoadas só conseguem dialogar sobre os ângulos e os pregos da cruz. Dever de quem se sente asfixiado no meio de toda essa ignorância instituída, desse atraso social incurável onde todos os projetos pretensamente revolucionários foram para a merda, e onde a vida se resume em falar mal dos outros, em ir às soirées, ter um emprego, uma casa, uma falsificação de Picasso, um carro e o certificado de filiação a uma das tantas e nefastas agremiações idólatras, idealistas e teológicas que, apesar do poder difamatório que dispõem, não são mais do que prostíbulos de infâmia.

Sim, é oportuno reeditá-lo neste momento, quando os capuchinhos da crítica literária nacional não conseguem fazer outra coisa além de bajular os vivaldinos do momento ou de reincensar Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano e outros vaselinas. Ah, será um gozo imenso fazer Vargas Vila circular pela cidade e por sua periferia onde a ralé desiludida se despedaça todos os dias a tiros, facadas e pauladas depois de ouvir os pastores, os padres e os gurus mentindo descaradamente nos palanques, nas dioceses ou nos programas de televisão! Acreditem: será um gozo imenso trazê-lo para o cenário, principalmente hoje, quando os mercenários, as matronas e os religiosos ocupam praticamente 90% das cadeiras no Parlamento. Quando os banqueiros, os donos de terras, os políticos, os representantes da imprensa, dos sindicatos, das igrejas e das indústrias (todo esse espectro vil das antigas monarquias) estão cada vez mais íntimos e próximos uns dos outros e quando são vistos juntos, enchendo a cara nos mesmos banquetes e fazendo pouco caso das desgraças que se abatem sobre cinqüenta ou sessenta milhões de pessoas. Quando são vistos abraçados tramando publicidades enganosas, ludibriando aos adolescentes com esportismos e porcarias tecnológicas, aos velhos com uma compaixão burocrática e com medicamentos falsificados e, às mulheres, com o modismo homomaníaco, obsessivo e burro de sempre.

Será mais do que oportuno republicar Vargas Vila agora, em português (esse idioma de pescadores), quando os estelionatários de todas as classes estão afinados e irmanados nos assuntos do agiotismo internacional, usando os mesmos ternos, as mesmas cuecas, as mesmas máscaras, as mesmas loções e a mesma linguagem. Quando a bandidagem republicana está silenciosamente rateando os fundos do Tesouro Nacional, devastando as matas nativas para plantar soja, loteando e explorando comercialmente os míseros prazeres e as míseras possibilidades de lazer acessíveis a uma multidão moribunda e deprimida que, por sua vez, não sabe fazer outra coisa além de competir, perseguir e infernizar-se mutuamente a vida, seja no confinamento doméstico ou nas arquibancadas desse prodigioso e olímpico circo. (y, ellos, se embriagan con el humo de la adulación, que la prosa mística de los conservadores, y la retórica plebeya de los jacobinos, les administran a alta dosis, y se creen eternos…). Delírio e desatino que realmente ninguém sabe quando terá fim, uma vez que os setores ditos cultos da atualidade –da literatura ao cinema, da tecnologia ao turismo e à sociologia etc, etc-, conspiram descaradamente para o engrandecimento da putaria política e para o aprofundamento da idiotia coletiva.

Por fim, este resgate da obra de Vargas Vila representa a realização máxima de minha vida de leitor. Considero esta releitura e esta publicação de seus textos como a mais importante de minhas contribuições na tarefa insólita de diagnóstico e de desmascaramento dessa opereta fajuta e desse music-hall pseudo-civilizatório em que nos atordoamos. Desse picadeiro patético onde até a pequenez própria –parafraseando Otto Fenichel- pode ser motivo de gozo quando serve para dar ao idiota a ilusão de que participa da grandeza do outro. Além de um maremoto nas consciências dos leitores, desejo que este livro também estremeça as estruturas frígidas e canônicas do palavrório irracional vigente e da língua.

Ezio Flavio Bazzo
Num café da Mouraria (Lisboa)




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francodluna ha dit...

Si bien Vargas Vila escogió Barcelona como tumba, como ultima morada, como lugar donde podrirse feliz, Bogota, siguiendo la irreverencia absoluta de siempre, mas que robarlo, lo devolvio a donde pertenece. se que jose maria donde quiera que este, esta feliz de revolcar sus huesos en alguna pared bogotana y haber dejado satisfechos de su carne a algunos gusanos catalanes.

he dicho.

franco de luna

francodluna ha dit...

Si bien Vargas Vila escogió Barcelona como tumba, como ultima morada, como lugar donde podrirse feliz, Bogota, siguiendo la irreverencia absoluta de siempre, mas que robarlo, lo devolvio a donde pertenece. se que jose maria donde quiera que este, esta feliz de revolcar sus huesos en alguna pared bogotana y haber dejado satisfechos de su carne a algunos gusanos catalanes.

he dicho.

franco de luna

Edgard Lunchi ha dit...

Jornal'Ecos da Literatura Lusófona

10 de Outubro de de 2005 - Edição N°26



A Coluna de Ezio Flavio Bazzo Brasil
Pág. 17

Errando pelas barrancas do São Francisco



"Para entender a falácia política atual é necessário lembrar que o Brasil sifilizou-se muito antes de civilizar-se"

O ziguezague do ônibus pelas estradas vai dando concretude à minha tardia Conquista do Oeste. A poeira que cobre as cercas, as vacas, os casebres, os terrenos estéreis e as pilhas de lenha, vai aos poucos se acumulando também na lateral de meus olhos.

Latifúndios imensos, alambiques, tropeiros com suas latinhas de angu, antigos currais de gado que agora são também currais eleitorais, mocinhas desvirginadas e soltas na rota da prostituição infanto-juvenil ciscando no território dos cabras-de-aluguel que passam o dia inteiro encostados preguiçosamente nas porteiras das fazendas, iguais àqueles descritos na literatura, no teatro e no cinema… Olhares semi-áridos. Casebres, mansardas. Tudo convida a uma arqueologia do brejo. Você pensa que sabe, mas não sabe o que é um casebre. Dois metros quadrados por um e dez de altura, duas mulheres octogenárias mascando fumo e um show de escarros no meio daquela solidão! Apenas a porta de entrada, como uma caverna e como um túmulo. Fumaça, bicho-barbeiro, um cão enrolado ao lado do braseiro, uma criança catatônica. O morador é o tal eleitor e cidadão que os políticos de todas as idades e facções falam. O título eleitoral enrolado num plástico e colocado numa fenda na parede como um hábeas corpus e como uma procuração em branco para governos e políticos assassinos! Crápulas e profissionais da política, confinados longe daqui, em suas mansões blindadas com jagunços no portão. Criados para cá e para lá, pistoleiros engajados na causa cretina de seus amos, rezadores e a cachaça nas veias, como a sina triste e a deslavada desculpa nacional para esta neurose coletiva. Um imenso mundo ainda semifeudal e semifluvial, de faltas e de carências… O peixe saltitante na rede é quase um símbolo da condição humana e da autofagia. Uma humanidade de escamas, sangue frio, olho de carcará. A peixeira reluz ao sol, a bainha carcomida pela seca e pelo sal. Vida sertaneja, a pele das faces como a dos peixes, escamas longitudinais, o horror da rotina semi-árida.

Pela janela do ônibus já passaram a Serra da Canastra, a Serra do Espinhaço, a Chapada Diamantina, o Morro do Chapéu, a Serra Jacobina etc… Apêndices ou erupções telúricas que, de alguma maneira, sempre se comunicaram entre si. Povoados, prefeituras, igrejas, areões desolados, Alcoólicos Anônimos, botecos, mercearias, feiras, mercados públicos, açougues ao ar livre, postos de saúde, secos-e-molhados, corredeiras, bancos de areia, desempregados em viagem do oeste para o leste, jazidas desativadas, mangueiras, mandiocais, esquistossomose, mulheres de má vida –como dizia Saint Hilaire-, o patrimônio histórico despencando, uma carroça com as rodas no rio sendo carregada de areia e de cascalho, os desempregados imóveis nas praças, cigarros de palha, vendedores de frangos e de leitões, os grunhidos dos leitões, o cacarejo dos frangos confundidos com a submissão dessa gente aos políticos, aos donos de farmácias, aos médicos do local, aos policiais, aos vereadores, às pastorais, aos fazendeiros e a outros privilegiados que são os coronéis da modernidade… Por enquanto nenhuma livraria e nenhuma biblioteca. Se na África,

"chaque viellard qui meurt est une bibliothèque qui brûle"

como diz Boulou Hama- aqui, parecem não se ter compreendido que a ignorância é o solo fértil não apenas para o cretinismo, mas também para o emporcalhamento e o aniquilamento do rio. Entrecruzam-se gorduchas descendentes da casa-grande e desnutridos engendrados na senzala… Tudo temperado e costurado pelo mais primata dos messianismos. Inventário de misérias! Transmigração das águas franciscanas versus transmigração de almas. A fornalha e o inferno do sertão! O zumm zzuunmm das moscas, vestígios do antigo impaludismo, as águas turvas, um pneu de bicicleta boiando no rio, uma fabriqueta de rapadura, slogans fora de contexto, oito ovelhas triturando pedras na raiz de um mandacaru e o encanto natural das paisagens desérticas Carne de bode e peixe desidratando-se num sol infernal… Devassidão invisível! As duas freirinhas sorridentes e com tipo asiático que preenchiam umas fichas sobre a fome e o desespero dos ribeirinhos, ouviram do político cínico a quem pediram uma definição de pobreza esta debochada resposta:

-Querem que lhes responda desde quê ângulo? Do ângulo da filosofia? Do direito? Da psicanálise? Do marxismo? Do kardecismo? Ou segundo a visão mística do monge Francisco da Soledade?



Elas baixaram o olhar, intimidadas, e caíram fora, com seus passinhos de castas e imaculadas. Alguém menciona a FAO. Ainda existe a FAO? Até hoje, trinta anos após Josué de Castro não se disse a verdade sobre a miséria desta região e nem sobre suas variáveis. Às vezes é tratada como precioso material cinematográfico, outras, como graça cristã, outras como maldição hedonista… Dinheiro para filmes, dinheiro para teses, dinheiro para livros. Sem essa seca e sem essa miséria o que seria dos gigolôs da cultura e dos Céus? As próprias vítimas são confusas, transitam entre as explicações do assistente social marxista e as elucubrações malucas dos kardecistas, entre as leis do karma e as leis da grana, entre uma sina satânica e as transações de mercado, entre uma criança morta de fome e um crucifixo ensebado. Triste sina, triste karma, triste destino… Onde foi parar aquele projeto de Getulio Vargas (1942) que previa a navegabilidade do rio e uma Grande Civilização para o Brasil Central? No imaginário de cada ribeirinho a obsessão pela rota oeste-leste, pela periferia paulistana ou mesmo pelos morros cariocas ainda aparece como uma salvação para os futuros dias de estiagem… Todo mundo já teve ou tem alguém por lá, um irmão que é escravo nas construções, um pai que é bandido no Vidigal, uma mãe que limpa a bosta das elites ou uma irmã que trabalha depois da meia noite e que lhes manda mensalmente, pelos malotes dos correios, alguns reais. Retirantes e paus-de-arara que, independente do tempo que permaneçam distantes deste inferno, parafraseando Josué de Castro, não conseguem se libertar da crosta telúrica que recobre a sua pele e a sua alma.

Fóruns, ONGS, Pastorais, Sindicatos, sedes de partidos, charque, cana-de-açúcar, fumo, escoteiros afeminados, a foice do partido comunista desenhada num barraco, Conselhos régios, centros espíritas, casas de macumba, de crentes e de fanáticos de todos os gêneros, programas internacionais, pichações oficiais por todos os lados… alguns acampamentos dos Sem-Terra e uma certa nostalgia pelas antiga utopia das Ligas Camponesas, enquanto as cacimbas continuam abandonadas, as endemias se alastram e os intestinos dos mortos estão sempre vazios. Enquanto os antigos revolucionários se prostituíram, enfiaram a boca faminta nos cofres do Tesouro Nacional, se perverteram como aquela mulher moralista, ética e imatura que foi trabalhar num bordel e acabou virando puta. De quando em quando aparecem do nada uma das tais "ilhas de prosperidade", pastagem verde, açudes, cercas, ranchos, rebanhos imensos à sombra da caatinga. Quem são, afinal, seus verdadeiros donos? Apesar dos laranjas, todo mundo sabe que são os mesmos políticos, os mesmos jesuítas e os mesmos jagunços esclarecidos de sempre, descendentes dos antigos "donos" do rio dos currais, que agora estão ocultos na urbe. Aqui no sertão todo mundo sabe que quem é dono do rio é dono de tudo. No período colonial a margem direita era dos baianos e a esquerda dos pernambucanos.

São incontáveis os compulsivos, os loucos e os curiosos que fizeram este trajeto, ainda quando nem havia estradas por aqui. Atrás de quê? De nada. Talvez, apenas para, como dizia João Cabral de M. Neto, correr os olhos por essa paisagem defunta.

De Jatobá a Piranhas já houve uma estrada de ferro. Regredimos. Como porcos famintos devoramos os trilhos, os dormentes e os vagões. Preferimos as picadas no meio do sertão, as trilhas no meio da caatinga, as estradas cheias de buracos e de cruzes. Não somos um povo normal! A antiga estação é agora um arremedo de museu na vila de Piranhas, a mais fascinante de todo o vale. Algumas fotos, alguns objetos e algumas curiosidades dos tempos da colônia e dos tempos do cangaço remetem-nos vertiginosamente à nossa pobreza. Se não fossemos tão corruptos poderíamos ter nosso Louvre ao lado do rio, nosso MoMa entre as escarpas e as cachoeiras, nosso Taj Mahal ali no alto onde se vê os muros brancos do cemitério. Poderíamos ter construído uma estrada de ferro que margeasse o rio da foz até a nascente, com fins unicamente de lazer. Passear. Vagabundear. Ao invés de passar a vida inteira fantasiando ir de Paris à Istambul, todo mundo partiria de São Roque para Penedo, para Piranhas, para as dunas na esquina da terra com o mar. Em uma estação um jardim botânico, com a flora da caatinga replicada no meio de cachoeiras artificiais. Em outra, um viveiro natural com toda a fauna nordestina. Em outra, a história dos barqueiros, dos vaqueiros, dos vareiros, das tribos, dos alimentos, das doenças, dos piratas, dos mouros, dos muçulmanos que vieram entre os escravos. Em outra estação um imenso hangar com todos os barcos, vapores, gaiolas e meios de navegação usados nesses quinhentos anos. Em outra uma réplica dos pelourinhos. Em outra um engenho de cana de açúcar, de cachaça, de melado. Em outra uma biblioteca imensa, com absolutamente tudo o que se escreveu sobre o sertão, sobre os desertos, sobres os rios, sobre os bodes, jegues, piranhas, naufrágios, afogamentos. Uma academia de música onde sempre haveria algum repentista e algum cantador recitando, trovando, eternizando o cancioneiro sertanejo. E ainda se poderia acrescentar uma feira permanente de frutas regionais, um aquário imenso com todos os animais aquáticos do rio e, para os incuráveis religiosos, um templo de solidão, mármore e vitrais italianos contando a vida do tal São Francisco de Assis que deu nome a este rio. Mas não. Preferimos mergulhar na idiotice, na corrupção, no mau caratismo, na avidez, nas feijoadas com orelhas e rabo de porco. Preferimos roubar, não só o Tesouro Nacional, mas tudo o que estiver ao alcance de nossas miséria, depositar o roubo em contas clandestinas, mandar nossos filhos estudar no exterior, engordar e morrer como porcos, sem criar nada, sem inventar nada, sem realizar nada. Os trezentos anos de chicote dos portugueses nos deixaram com a coluna fraturada, o imaginário reduzido, envenenado pela modéstia e pela cristandade.

Pensão Maria Bonita, Piranhas (AL)

Anònim ha dit...

Texto do Bazzo para os jornais brasileños (28-10-2005)
"Depois de assistir às duas últimas acareações e os impasses
ignóbeis na Comissão de Ética no Congresso Nacional, por mais alienado, burro, passivo e ignorante que alguem possa ter a
desgraça de ser, é impossível não recorrer à antiga e conhecida obra de Alberto Pimenta, intitulada Discurso sobre o Filho-da-puta.
Como esse país não é chegado à leituras profanas, dou-me o
trabalho de reproduzir aqui algumas de suas partes mais
sugestivas, para fins catárticos e terapêuticos: "O pequeno
filho-da-puta é sempre um pequeno filho-da-puta; mas não há
filho-da-puta, por pequeno que seja, que não tenha a sua própria grandeza, diz o pequeno filho-da-puta. No entanto, há filhos-da-puta que nascem grandes e filhos-da-puta que nascem pequenos, diz o pequeno filho-da-puta. De resto, os filho-da-puta não se medem aos palmos, diz ainda o pequeno filho-da-puta. Já, o grande filho-da-puta foi concebido pelo grande senhor à sua imagem e semelhança, diz o grande filho-da puta. De resto, o grande filho-da-puta vê com bons olhos a multiplicação do pequeno filho-da-puta."

Clarissa Schuman ha dit...

MORTE AO VAMPIRO DE CURITIBA

-Ezio Flavio Bazzo-


Tu me ensinaste tua língua e esse saber deu-me a possibilidade de maldizer-te
Shakespeare


Tanto o taxista como a camareira insistem em convencer-me que esta é
praticamente uma cidade européia. Não sabem que foi por aqui que vivi meus
mais longos anos de rato.
Passaram-se quatro décadas e quase nada (de essencial) foi alterado. Tirando os
transportes públicos (que são realmente melhores que os de Paris), tirando o
mercado imobiliário (que derrubou os castelinhos coloniais para levantar
imensos prédios espelhados sobre eles), tirando o Leminsky e o Jamil Snege
(mortos prematuramente), tudo por aqui continua sob o signo do mais triste
provincianismo, onde o reino da ignorância impera. Filas em casas lotéricas,
diante das lojas pernambucanas, dos bancos, dos correios, dos shoppings e, nos
rostos impávidos, os lampejos de uma esperança religiosa e fútil. A comilança em
Santa Felicidade continua em alta. Ônibus enfileirados levam carecas gorduchos e
senhoras balofas de todas as municipalidades ao festim. Se o cérebro permaneceu
imutável desde as levas migratórias, o estômago foi tornando-se cada vez mais
exigente. Os sebos e as livrarias (que trabalham basicamente com pontas de
estoque) fecham as dezoito horas. A Biblioteca Pública, por milagre, vai até as
vinte, hora em que a solidão da província e os clochards caem sobre as ruelas.
Hora em que alguns punks e alguns travestis confabulam na praça Tiradentes,hora
em que
duas famílias tradicionais vão comer quibe cru no Velho Oriente e uma
caminhonete velha estaciona no portal do cemitério municipal para lá livrar-se
de seu morto. As exposições no Museu Niemayer são quase uma lástima,o de Arte
Contemporânea parece um jardim de infância, a Ópera de
arame está fechada para reforma, meu antigo colégio é hoje uma pizzaria, o
cursinho que
surrupiou-me altas mensalidades durante anos
virou bordel, as mil e uma pensões onde outrora me abriguei, apodreceram e
foram dinamitadas. Mangiare! Tudo por aqui se resume em fazer os filhos
passarem no vestibular e mangiare. Comer e engordar como suínos. Ver a banha
crescer e cair sobre as ancas e sobre o cinturão. Ah, com tantas tetas brancas,
imensas, copiosas pelas avenidas, difícil não regredir.
Uma atrás das outras as cidades do mundo vão me decepcionando. Depois de
conhecer Katmandu, difícil interessar-se por outra urbe. Sento-me na chamada
Rua das Flores e vou vendo o ziguezague e o vaivém das valises, das roupas de
marca, dos rolex falsificados, dos celulares... Acompanho a pressa, o canyon da
xota marcado na roupa de tricoline, as medalhas de ouro, os dentes implantados,
os sapatos pontiagudos, as mais diversas manifestações da famiglia que aparecem
por todos os lados e com todas as marcas de suas enfermidades. O sino da
catedral semi-gótica embala o sono dos mendigos com suas pulgas e seus
sobrenomes polacos. Pasteis chineses, o ratinho na TV, a famiglia ucraniana,
italiana, alemã, o amor fraterno pela terra, pelos pinhões, pela estória. Dio
mio! O trem desce a Serra do Mar na maior barulheira até deixar-nos no coração
de Paranaguá, esta filial do inferno! Morretes, Antonina, Ilha do mel. Por
todos os lados a maldita dificuldade de pronunciar o r e a ingenuidade aparente
de quem crê em deus, em outra vida, em outro mundo, no dinheiro e na
ressurreição dos cadáveres. Muitas velas e muita lengalenga aos pés de Nossa
Senhora do Rocio, semana em que a cidade –com exceção dos paus d água –mergulha
consciente no mais miserável dos estoicismos. Quarenta anos! Deambulo pelas
antigas ruas curitibanas de minha adolescência, temeroso de encontrar as donas
de pensão que engambelei ou as pequenas prostitutas que comi sem pagar, jurando
que se um dia viesse a ser dono de algum reino, as contrataria como minhas
embaixatrizes, minhas rainhas, gueixas e santas. Na vitrine, o Vampiro de
Curitiba que nunca li. O cheiro do café, a penumbra das galerias, as lojas de
móveis usados, a obsessão das mulheres pela limpeza e os pombos que beliscam os
paralelepípedos, sem consciência alguma de que em breve, quando a gripe aviária
chegar por aqui, irão todos para o saco. Tomo mais um trago de café e sublinho
esta frase do Jamil Snege (o único escritor curitibano com substância):
reconhecerei, com os olhos semi-cerrados de réptil, as cornijas de tufo branco
para onde os pombos levam meus dentes.

Curitiba, VI de março de 2006 (19,30 horas)

Anònim ha dit...

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Nuevo libro del autor brasileño Ezio Flavio Bazzo
del periodico La Confraria

ENTRE OS GRITOS DO CARCARÁ E A DESFAÇATEZ DA RAÇA HUMANA

“Serpientes, serpientes, siempre me fascináis”
Aragon

Sertão sanfranciscano! Antigo reino da piracema, das carnaúbas e dos carrascais! Sertão paraíso! Sertão anfíbio! Sertão hospício e inferno! Sertão bestiário e caldeirão de bruxaria! Sertão cloaca de significantes! Sertão sintoma e espelho de nossa secreta desfaçatez! Uma vintena de dias serpenteando com o rio da Serra da Canastra até o Oceano Atlântico, junção de águas por onde Maurício de Nassau entrava para roubar gado dos currais e a milícia de batina para perverter almas. A trivialidade do cotidiano, jegues, piranhas, bodes e bardos errantes pelas barrancas desse longo escoadouro. Pena que se acabou a excitante e folclórica navegação em gaiolas. Os esqueletos dos velhos barcos estão ancorados e apodrecidos às margens para quem quiser ver. Os antigos donos das companhias de navegação, os patrões dos remeiros e os sórdidos e sucessivos governos não abandonaram apenas as hidrovias, desativaram também a Ferrovia Central do Brasil e deixaram a buraqueira tomar conta das estradas. Hoje, para percorrer esses quase três mil quilômetros é necessário estar com as vísceras em muito boa forma. Ainda bem que cada solavanco arranca dos viajantes uma maldição atrás da outra e um rosário de questionamentos seculares: Onde estão os paladinos revolucionários? Os jacobinos? As Ligas Camponesas? Os ex-hippies do Green-Peace? Onde estão os agitadores profissionais? Os tais homens de bem que dedicariam suas vidas aos pobres e aos desgraçados do planeta? Onde estão as ONGS? Onde estão os jagunços, os cangaceiros, os índios, os quilombolas, os donos da gadaria, os gerentes da Teologia da Libertação? O Padre Cícero? Os Conselheiros? Os Riobaldos, os Robin Hoods e os Beneditinos, com sua sede mortal de ficções? Cadê os figurões de engenho? O Bom Jesus da Lapa? A Associação das Mulheres Enfezadas do Sertão? Onde estão as máfias que se sucederam durante décadas nos Ministérios, nas Prefeituras, nos Governos? Os tataranetos dos bacharéis portugueses, os promotores e os juízes? Onde estão os misericordiosos e altruístas empresários? Os banqueiros? Os advocatus diabolis? A burguesia obesa e triunfante com sua anêmica demagogia de salvação? Cadê a direita frívola, monástica, cheia de esquemas e concêntrica, com seus grupos de extermínio? Aqui entre nós, leitor: pode-se esperar alguma coisa de um povo que ainda tem como principais fascinações: a farda, a batina e a tribuna?”.
Onde estão as sacerdotisas, as “quengas dos remeiros, as mulheres de beira-de-rio e todas as outras criaturas de lama?” Onde estão os trapaceiros de todos os partidos e de todas as Constituintes? Os economistas? A juventude anarquista? A imprensa cortesã? Os punks incendiários e os vaidosos literatos regionalistas? Onde estão os pesquisadores de “tempo integral?” Os “consultores” e outros estelionatários do gênero? Onde estão os homens que têm bagos neste país? Por todos os lados um festival de visionários e de fantoches ambíguos, de ex-presidentes, ex-gigolôs, ex-coronéis, ex-senadores, ex-jagunços, ex-esquerdistas, ex-arcebispos, ex-amantes, ex-sindicalistas, ex-procuradores e ex-governadores com suas respectivas viseiras e capachos. Todos novos ricos sem história, sátiros travestidos de políticos, parasitados pela voracidade de suas velhas e de sua prole, engajados em conciliações miseráveis, em arranjos, em cumplicidades, em trapaças, em omissões e em sigilos repugnantes. Traficantes de habeas corpus, meretrizes genuflexas imedicáveis, camelôs de frases prontas, párias da execração, homens que, com seu sêmen, com sua merda e com sua lábia só envenenaram este país sem nunca assumirem uma postura grandiosa diante de nada, com exceção, claro, do crime. Nem sequer diante dos milhares e milhares de flagelados em fila indiana que, durante as décadas e os séculos da transição entre a tribo e o paradoxo, apodreciam em suas tocas, na solidão da caatinga e ao longo das estradas, isso, quando não se lançavam num êxodo desesperado e suicida para a servidão dissimulada lá nos seringais amazônicos, lá nas construções do sul ou mesmo lá na solidão das fazendas paraguaias.
O ônibus empoeirado vai margeando o rio e varando o sertão ora sob um sol filho-da-puta, ora sob um telão sideral indescritível, levando em seu interior uma legião de seres sem gravidade que têm, pelo menos, a audácia de não querer ser nada. A cada solavanco, uma nova blasfêmia, e uma nova pergunta. Onde estariam os crápulas representantes desse povo? Resposta: Mortos! Todos mortos vivos. Soterrados por suas vidas de bosta. Cambada de dândis incompetentes e narcisistas, ocupados com suas nádegas, com suas roupinhas da moda, com suas aplicações financeiras, com suas mansões e com seus cremes. Filhos-de-éguas – esbravejava um sertanejo. Potencialmente criminosos, medíocres, mercantilistas, analfabetos, herdeiros diretos tanto dos párias europeus que por aqui se fixaram, como dos donos dos currais, das usinas, dos canaviais, dos garimpos, dos chefões da carnaúba, do cacau e de tudo. Todos enlouquecidos pelo enriquecimento desleal, por debaixo dos panos, nos intervalos dos jantares, e pela libido, que foi se convertendo aos poucos em peçonha! Porcos ébrios! Ébrios de um falacioso civismo, de uma enganosa religiosidade, de uma tola cidadania e de mil outras bizarrices, como se intuíssem que tanto nossa dor como nosso destino carecem de lógica e de motivo.
E é enfurecedor saber que apesar de todo o teatro recente ao redor da ética, é a mesma súcia e seus descendentes que continua governando, tendo acesso aos segredos de Estado, aos cofres e às senhas do Tesouro Nacional. Sim, é um exercício de desfascinação confirmar que o povo, a plebe, o populacho, as manadas estéreis de eleitores de todas as classes, em sua languidez, só amam histérica e perdidamente ao futebol e não estão nem aí. E mais, infectadas de credulidade mística, por um lado, e de niilismo antropológico por outro, para elas, que os parlamentares jurem sobre a Bíblia ou peidem –parafraseando a Demetrius-, é tudo a mesma merda. Pobres trópicos!

Barranca do rio São Francisco
Sertão nordestino, 2006.

Tereza Schumam ha dit...

por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)


“Assim falou Vargas Vila”
Anátemas sobre livros, amizade, política, religião etc.


“Duvide. Nenhuma fé até hoje foi tolerante. A dúvida é a tolerância. A fé levantou fogueiras, a dúvida não as levantará jamais. Toda fé é uma tirania e todo crente é um escravo. Não acredite”

Vargas Vila


As palavras de Vargas Vila nos convidam à reflexão; seus temas são universais. Ele me foi apresentado por Ezio Flavio Bazzo, organizador do livro “Assim falou Vargas Vila”.[1] O autor dos 323 anátemas selecionados, cujo nome completo é José Maria de la Concepción Apolinar Vargas Vila Bonilla, nasceu na Colômbia em 1860 e morreu no ano de 1933, em Barcelona.

Os trechos apresentados por Bazzo constituem apenas uma pequena amostra das milhares de páginas que compõem a obra de Vargas Vila. São, porém, suficientes para escandalizar uns e levar outros a refletir sobre os significados mais profundos da vida em sociedade. Este autor maldito, banido de sua terra natal, foi um “novelista, militante panfletário, jornalista, niilista, ateu, anticlerical e obsessivamente indignado com a palhaçada fastidiosa reinante na América Latina, principalmente com o carneirismo vergonhoso de sua política e de suas assembléias” (Bazzo, 2005: p. XXIII). Seus livros foram censurados, queimados em praça pública e a igreja ameaçou de excomunhão quem se atrevesse a lê-los.

Embora escritas há muito tempo, suas palavras são pertinentes e “têm tudo-a-ver com o hospício vigente de nosso cotidiano e com as psicopatologias secretas e reincidentes de nosso imaginário...” (Id.: XXXII). Os fanáticos de todos os tipos, religiosos e/ou políticos, provavelmente se sentirão desconfortáveis se lerem frases como estas:

“Aspirar em desmascarar ou em eliminar as falsas verdades já é ter uma fé em uma verdade; e eu não sei em quê o despotismo científico que padecemos seja mais livre que o despotismo teológico que o precedeu; e isso, porque toda fé é uma tirania; e mudar de fé, é mudar de servidão; só a dúvida é livre” (XXXVIII).

“A idéia que se cristaliza, já não é uma idéia, é um preconceito, e pode haver algo mais prejudicial que um preconceito filosófico? Desse detrito de todas as idéias é que se formam as religiões” (LXX).

“Não existe nada mais vil na escala dos despotismos que o escravo intelectual ou, melhor dizendo, o intelectual escravo, que tendo consciência de sua baixeza, não renuncia a ela. Para ele, a escravidão não é uma desgraça, mas sim uma profissão” (LXXIX).

Os dogmáticos têm dificuldade em admitir que “só a dúvida é livre”. O sectário necessita veementemente acreditar em sua fé, em sua verdade absoluta. O passo seguinte é a tentativa, dissimulada ou violenta, de impor o que considera “justo” e “verdadeiro”. Tais indivíduos não se contentam em querer o “paraíso” apenas para si, mas precisam “salvar” os que não comungam das suas idéias e crenças. Eles almejam impor o “seu paraíso”, os seus deuses e ídolos. Vêem-se como pastores cuja missão é arrebanhar o máximo de almas possível; sua retórica catequética tem como método o medo e o argumento maniqueísta. Eles se consideram os “eleitos”, e os que não aderem à sua “igreja” são os a serem “salvos”, os “perdidos” e, no limite, os “condenados”. Como fala Vila Vargas:

“Aquele que está disposto a sacrificar sua vida por uma idéia, está disposto também a sacrificar a dos outros em homenagem a ela; por isso se pode tão facilmente fazer de um mártir, um verdugo” (XLV).

Os mártires do nosso tempo, com suas “guerras justas”, são os soldados da intolerância, da ideologia política que se transmuta em religião. É o despotismo renitente que ressurge, ainda que sob a capa da política racional e da ciência. Para Vargas Vila:

“O grande cúmplice da tirania é o silêncio; não atacar o despotismo é a maneira mais covarde de servi-lo; não denunciá-lo é auxiliá-lo; estar próximo dele sem feri-lo é a maneira mais vil de protegê-lo; e proteger o crime é mil vezes pior que cometê-lo; eis aí a hora em que a palavra é um dever e o silêncio é um crime” (XLVIII).

O dever do intelectual é romper o silêncio, ainda que sua voz seja abafada pelos poderosos e seus cúmplices de plantão. Em tempos de intolerância, racismo e fundamentalismos, calar é criminoso. E já que nos referimos aos intelectuais, vejamos o que afirma Vargas Vila sobre os livros:

“À simples presença de um livro, sinto o desejo súbito de fugir; não me atrevo a tocá-lo; tenho a impressão de que aquilo é um cofre mal fechado que guarda uma víbora encolerizada e fatal que vai grudar-se à minha mão, inocular-me seu veneno e não me soltar nunca...” (XXXV).

“A desgraça dos homens de letras está em que, preocupados com a imortalidade, não se ocupam em ganhar a vida; morrem de fome, pela fome de não morrer; e não tendo o que comer no presente, se encarregam de devorar o futuro... e se alimentam com os lauréis do porvir; eis aí, porque todo gênio tem algo de herbívoro... devoradores de hipóteses” (XXXIX).

“Um livro te faz sofrer? Leia-o. Esse livro te salvará” (LXIX).

E, realmente, há livros que são perigosos; os ditadores e censores de todos os tipos que o digam. Não obstante, talvez o perigo maior esteja em transformá-los em objeto de culto, em suspender a dúvida e acatá-los como a “verdade a ser proclamada”. O tratamento religioso dos livros não se restringe àqueles que fundamentam as religiões, os quais são assumidos como a doutrina inquestionável, a verdade revelada; há autores profanos transformados em profetas e seus livros religiosamente cultuados como a última verdade proferida. E ai dos hereges que duvidarem da palavra profetizada e interpretada pelos especialistas, os seus guardiões.

Também é perigoso tomar os livros como a realidade. Se na ficção há lugar para personagens como D. Quixote, é triste o quixotismo moderno dos que vivem com os pés no chão e a cabeça nas nuvens e se mostram sempre ciosos de abstrair e restringir a conceitos a realidade dos homens concretos, de carne e osso, com suas qualidades e imperfeições. Estes são transformados em abstrações e/ou dilemas a serem superados pelo debate teórico. Quando só se consegue experienciar a realidade pela ótica dos livros, seus personagens fictícios adquirem vida própria e os modelos conceituais existentes em nossas cabeças passam a delimitar os personagens reais que caminham sobre o mundo. Os que se tornam escravos dos livros, não percebem a riqueza que há na simplicidade das relações humanas cotidianas concretas. O livro também induz à perdição, isto é, à perda do sentido do real. O apego exagerado aos livros é uma espécie de doença[2] que potencializa a vaidade dos candidatos a “gênios”, os quais, cada vez mais, se isolam do mundo dos simples mortais. Os que se encontram no Olimpo, ocupados com a imortalidade, têm dificuldades de se reconhecer nos comuns, cujos pés e cabeça teimam em se firmar na terra.

Os que preferem os livros à companhia humana, ou que só conseguem dialogar com aqueles que se identificam com suas leituras, falam de amizade como se esta tivesse seu fundamento nas teorias, conceitos e ficções literárias. Eles são capazes de debater por horas sobre o significado da amizade, desde os clássicos da antiguidade, mas são incapazes de suportar o amigo de carne e osso se este o trás de volta à terra e lhe fala em linguagem espontânea e vulgar. Parece que se protegem contra os choques que as relações pessoais reais inevitavelmente causam. Uma coisa é discutir a dialética dos livros, outra é assumir os conflitos inerentes ao humano.

Devemos tentar compreender. Em geral, os homens necessitam das ilusões e os livros são um convite à imaginação. Os homens são capazes de amar a humanidade em geral e até mesmo de se declararem dispostos a morrer por esta, mas são profundamente incapazes de suportarem o indivíduo concreto e específico. O próximo torna-se o distante, o conceito, a abstração. O ser humano tem dificuldade de assumir a verdade para si e nas relações com os demais. Ele precisa se refugiar na imaginação e na mentira. Dostoievski, que compreendia como poucos a alma humana, observou que:

“Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio...” (1992:99).

Vargas Vila afirma algo semelhante:

“A sinceridade é uma virtude que a devemos somente a nós mesmos. Praticá-la com os outros é um suicídio” (LXXXIII).

Seja sincero e você corre o sério risco de ver decretada a sua morte social. Muitos lhe considerarão inconveniente e grosseiro; outros dirão que você padece da ingenuidade dos loucos e das crianças – os únicos que, em geral, não temem a espontaneidade – e o aconselharão a “pensar antes de falar”; dirão que seu tom de voz é ofensivo. O ser humano precisa mentir e, especialmente, ouvir mentiras. Ele não está preparado para conviver com a verdade. A mentira é o fundamento da nossa sociedade:

“O único método reflexivo de triunfar é a mentira; a verdade é espontânea e irreflexiva; por isso leva sempre à derrota; ninguém se salvou por dizer uma verdade; todos os vencedores o foram pelo poder de uma mentira...” (XXXIX).

“A mentira é o estado natural do homem. Na mentira vivemos, pela mentira gozamos e é do seio generoso da mentira que extraímos as únicas gotas de mel que adoçam a vida. A mentira é a esmola dos céus, nela vibra a bondade suprema, é ela que dá força ao espírito para não desfalecer, não morrer, não fechar as asas e cair dos céus exóticos do sonho sobre a terra miserável” (LXXII).

“A verdade é de tal maneira odiosa aos homens, que quando mencionam uma, a colocam na boca de um louco como Hamlet. E é para provar sua loucura que este diz uma verdade” (LXXX).

Nestas condições, onde a verdade deve ser socialmente dissimulada e substituída pelas aparências, talvez Vargas Vila esteja certo quando define a amizade como uma:

“... forma de comércio entre os homens, máscara de Aristófanes sob a qual se gesticula à vontade; consórcio de duas vaidades, junção de duas mentiras sob qualquer interesse sempre bastardo (...) a hipocrisia é o laço que une os homens em sociedade: no dia em que imperasse a franqueza, se destruiriam uns aos outros como os soldados de Cadmos” (XLIV).

“Assim falou Vargas Vila” e suas palavras “falam” por si mesmas. Resta-nos apenas escandalizar-se ou suspender os nossos preconceitos e refletirmos sobre o seu significado. Não precisamos acatá-las como verdades absolutas. Contudo, se não somos dos que temem a dúvida, temos algo a aprender. Afinal, se atentarmos bem para o nosso cotidiano, talvez nos assustemos em perceber que tais palavras, por constrangedoras que pareçam, servem bem para pensar o indizível, aquilo que não temos coragem de pronunciar. Quantos de nós estamos dispostos a assumir os riscos de dizer aos nossos amigos e pessoas amadas o que realmente pensamos delas? Quantas amizades, casamentos etc. resistem à verdade? Talvez por isso preferimos nos enganar mutuamente, como se pisássemos em cristais sem assumirmos o risco de quebrá-los.

Bazzo, ao disponibilizar parte da obra de Vargas Vila, pretendeu causar um “maremoto nas consciências dos leitores” e, ainda, fazer estremecer “as estruturas frígidas e canônicas do palavrório irracional vigente e da língua” (XXXI). Talvez alguns dos leitores tenham desistido de enfrentar a tormenta. Você que acompanhou estas reflexões até aqui, espero contar com a sua companhia até completar a travessia. Leiamos mais alguns anátemas de Vargas Vila:

Sobre Política...
“É sendo homem de partido que se chega ao poder; mas é deixando de ser homem de partido que se conserva o poder; os traidores sabem muito bem disso, e o praticam” (XLIII).

“De todos os inimigos das revoluções ninguém mas incomodados nem mais intolerantes que aqueles que foram revolucionários; eles não perdoam aos que pretendem levar à vitória os movimentos que eles levaram ao desastre. Crêem que porque eles envelheceram, as idéias envelheceram também, e que sua decrepitude é a decrepitude do mundo” (Id.).

“O direito ao voto me parece um direito ao envilecimento ; votar é abdicar; é eleger-se um amo; é dar-se um amo, é mais vil que suportá-lo; um homem livre não pode se aproximar de uma urna eleitoral se não é para Quebrá-la; votar é perpetuar a vida do tirano; daquele tirano que nos escraviza e nos envilece a todos: o Estado” (LIV).

“É tão fácil ter partidários... para isso basta renunciar a nossa liberdade. O que é difícil é conservar-nos autênticos e livres” (CVIII).

... e religião
“O homem é a mais forte razão de ateísmo que existe na terra; o homem é um argumento contra Deus” (XXXVI).

“A virtude cristã é uma virtude de escravos”. (LXXII).

“O homem que se ocupa de destruir ídolos, não tem porque se preocupar em fabricar outros: toda idolatria é o culto à mentira. Não existe nada sobre a terra, nem fora dela, nada digno de ser adorado pelos homens. A adoração é um sinal de debilidade, para não dizer de inferioridade” (XCI).

“O ódio dos sacerdotes aos filósofos e dos filósofos aos sacerdotes, não é ódio, é rivalidade de pastores empenhados em conduzir sozinhos o rebanho... e de tosquiá-lo” (CI).

“O mundo é tão absurdo que para explicá-lo, o homem teve necessidade de um absurdo ainda maior e criou Deus... e exclamou: credo in absurdum” (CVIII).

“Nada nos faz desconfiar mais da existência de Deus do que as pessoas que acreditam nele” (CIX).

As palavras de Vargas Vila fizeram-me pensar sobre a vida em todos os seus aspectos. Ficou o paradoxo da certeza expressa na epígrafe: duvidar; duvidar de mim, de todos e também do que li. Espero que tenhamos sobrevivido, sem ressentimentos, intolerância e/ou preconceitos, aos anátemas relacionados. Que cada um reflita e tire as suas próprias conclusões...

__________

[1] Para adquirir o livro escreva para: eziob@yawl.com.br. Detalhes e a apresentação de Ezio Flavio Bazzo estão disponíveis em: Revista Espaço Acadêmico, nº 49, Junho de 2005.

[2] Para uma reflexão sobre este tema ver: “Ler faz bem ou mal?”. Revista Espaço Acadêmico, nº 35, abril de 2004.










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Referências Bibliográficas
BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília, Companhia das Tetas Publicadora, 2005.

DOSTOIEVSKI, Fiodor. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo, Editora Paulicéia 1992. [Tradução do russo: Boris Schnaiderman]


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Anònim ha dit...

GOG no Congresso Nacional Brasileiro
Um texto de Ezio Flavio Bazzo

Nos dias em que não tenho absolutamente nada para fazer, costumo lubrificar minha minúscula e secreta máquina fotográfica e vir logo pela manhã aqui ao Congresso Nacional. O Salão Verde, o Salão Negro, todos os outros Salões, as Bibliotecas, os cafés, a barbearia, os bancos, o vai-e-vem dos funcionários, o aroma do cafézinho, o rebolado das secretárias e as máscaras das ilustres autoridades assim como os labirintos entre um gabinete e outro me proporcionam uma espécie diferente de lazer e uma série de emoções quase indescritíveis. Neste clima simpático de excelentes salários e de Éden republicano sinto que me confundem facilmente com um dos tantos assessores, com um dos tantos sindicalistas, com os líderes dos sem-terra, dos sem-teto, de alguém que está pleiteando junto ao “seu” deputado ou ao "seu" senador a abertura de uma nova Ong, a patente para uma nova faculdade, para uma fundação, para uma casa de jogos, para uma invasão de terras, um garimpo, um bingo, uma nova religião, um habeas corpus ou coisa parecida, personagens que estão sempre circulando por aqui, não apenas neste governo – teatralmente socialista - mas em todos os da história deste decrépito parlamento. Quando começo a sentir náuseas, tomo catorze gotas de Atroveram, sento-me num destes confortáveis divãs espalhados pela casa e leio algumas páginas do livro que sempre trago na bolsa. Hoje – por exemplo -, dia 08 de fevereiro de 2007, li numa página e meia do GOG, de Papini, estes textos deslumbrantes, que revelam bem, e em parte, o meu estado de humor e de consciência.
“Experimentei o ópio: idiotiza-me. Todos os álcoois transformam-me num louco repulsivo. A cocaína embrutece e encurta a vida. O haschisch e o éter são bons para os pequenos decadentes retardatários. A dança é uma estupidez que faz transpirar. O jogo, apenas perdidos dois ou três milhões, desgosta-me, diversão demasiadamente comum e cara. Nos music-halls só se vêem os habituais pelotões de girls muito pintadas, nuas, odiosas, todas iguais. O cinema é um opróbrio reservado às classes populares. A velocidade – de automóvel ou de aeroplano – distrai nos primeiros tempos, mas depois, parece ridícula, não se vê nada e chega-se em estado de imbecilidade a um lugar onde só se espera a hora de ir embora. O teatro é uma diversão para velhos e para snobs infectos de estética. Nos concertos, pode-se ouvir, de vez em quando, um ou outro trecho que faz com que a gente se esqueça de si mesmo – resultado desejável – mas, ter de ouvir outros, e no meio de récuas humanas que se entregam hipocritamente ao êxtase, enquanto pensam, sabe Deus em que torpezas e imundícies, é um tormento. Quanto ao sport, é preciso ser jovem, fácil de contentar e primitivo.
As diversões que o mundo me oferece, levam à imbecilidade ou à loucura, ao tédio ou à morte. Desejaria outro vinho, outro teatro milagroso, um sport mais trágico, um ópio que mudasse para sempre o meu eu... Ah, esses crápulas se satisfazem com tão pouco! Um fac-simile de emoção, uma bestial inconsciência. Homens como Calígula ou Kafur, talvez pudessem se divertir, eu não me atrevo”.
Ezio Flavio Bazzo